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Manifesto do Parto Activo

©Copyright Janet Balaskas, 2001

1. Todos os partos vividos em liberdade e sem inibições são acompanhados de uma importante movimentação da mulher: ela caminha, fica em pé, de cócoras, de joelhos, deitada, e se movimenta-se livremente para encontrar as posições mais apropriadas e confortáveis. Não se pode designar uma posição fixa para um trabalho de parto e parto natural e saudável quando a mulher segue os seus próprios instintos – porque o parto é ativo, envolve uma sucessão de posições variadas, não é um confinamento passivo.

2. Durante milhares de anos, no mundo todo, as mulheres tem espontaneamente vivido os seus trabalhos de parto e partos em alguma posição vertical ou agachada – geralmente com a ajuda de alguém ou alguma coisa a servir de apoio. Qualquer que seja a raça ou a cultura: africana, americana, asiática ou europeia, e assim por diante, as mesmas posições verticais predominam. A História confirma as evidências dos etnologistas, que demonstram que o uso das posições verticais prevaleceu ao longo do tempo.

3. Hoje, a maioria das mulheres de países industrializados são limitadas à posição deitada ou semi-deitada, geralmente no hospital. Esta prática é ilógica, e torna o parto desnecessariamente complicado e caro. Faz com que um processo natural se torne um evento médico, onde a parturiente passa a ser uma paciente. Nenhuma outra espécie adota uma posição tão desvantajosa num momento tão crucial.

4. As pesquisas revelam sérias desvantagens no uso da posição recostada:

•Deitar-se de costas comprime os grandes vasos abdominais localizados ao longo da coluna vertebral. A compressão da grande artéria do coração (aorta descendente) obstrui a circulação sanguínea em direção ao útero e à placenta, e pode resultar em sofrimento fetal. A compressão da grande veia que vai ao coração (veia cava inferior) restringe o retorno venoso, e pode contribuir para a hipotensão e outros problemas circulatórios, aumentando o risco de grandes sangramentos após o parto.

•A posição recostada reduz o potencial da mobilidade das juntas pélvicas. Reduz particularmente as vantagens de se flexionar os joelhos e quadris em alguma posição vertical, ou seja, o ângulo agudo que se forma quando os joelhos vem em direção ao peito (como em posição de cócoras), que abre e expande a pélvis ao seu máximo. Na posição reclinada, o peso do corpo repousa diretamente sobre o sacro, e impede o movimento que a parede posterior da pélvis faz para acomodar a cabeça do bebê à medida que ele desce. Isto reduz significativamente o espaço da passagem pélvica entre a sínfise púbica e o cóccix; perde-se até 30% de potencial de abertura, quando comparado com a posição de cócoras ou posições onde o tronco se inclina para frente.

•É mais fácil para qualquer objeto cair em direção à superfície da Terra do que deslizar paralela a esta (Lei da Gravidade de Newton). Em posições reclinadas, o útero tem que trabalhar em oposição à gravidade. Assim, ocorre um desperdício de energia, produz-se esforço e dor desnecessários e a duração do trabalho de parto e do parto aumenta. A descida, a rotação e o parto do bebê são mais fáceis quando a posição materna direciona o bebê para a Terra, ao invés de direcioná-lo na linha do horizonte.

• Apresentações inadequadas do bebé são mais comuns quando os movimentos espontâneos da mulher, que guiam a rotação do bebé através do canal de parto, são restringidos.

• Na posição deitada, o parto acontece com uma distensão desigual dos tecidos perineais às custas da porção posterior, o que causa stresse, dor e aumenta o risco de uma laceração ou da necessidade de uma episiotomia.

5. Os movimentos e as mudanças de posição são mais importantes do que adotar uma única posição considerada ótima, ou, considerada a melhor posição, durante o trabalho de parto.

Posições espontâneas de trabalho de parto incluem ficar de pé, caminhar, sentar-se com o tronco ereto, ajoelhar, acocorar ou deitar de lado.

Uma posição para o trabalho de parto é fisiologicamente eficiente quando:

•Contrações mais poderosas, resultando num reflexo expulsivo eficiente

•Excelente oxigenação fetal

•Mínima extenuação e esforço muscular

•Excelente ângulo de descida

•Máximo espaço para descida, rotação e emergência das partes do bebé que vão se apresentando na saída da passagem pélvica

•Ótimo relaxamento do períneo

O uso de tais posições verticais produz os seguintes benefícios adicionais durante o parto:

•Contrações mais poderosas, resultando em um reflexo expulsivo eficiente

•Excelente oxigenação fetal

•Mínima extenuação e esforço muscular

•Excelente ângulo de descida

•Máximo espaço para descida, rotação e emergência das partes do bebê que vão se apresentando na saída da passagem pélvica

•Ótimo relaxamento do períneo

Foi demonstrado que quando o uso de posições verticais durante o trabalho de parto e parto é apoiada e encorajada, o número de partos fisiológicos espontâneos aumenta.

6. Num parto ativo, o processo fisiológico desenrola-se espontaneamente graças à libertação irrestrita das hormonas do parto. A libertação de oxitocina é ótima, resultando em contrações eficientes no trabalho de parto, num reflexo expulsivo eficaz no parto, em fácil liberação da placenta e boa retração do útero depois. Os altos níveis de endorfinas aumentam a habilidade da mulher para lidar com a dor sem intervenções. Os efeitos altruístas dos altos níveis hormonais, tanto na mãe quanto no bebé, promovem o vínculo na crítica hora após o parto.

7. A importância de um ambiente propício para o trabalho de parto e nascimento, onde a mãe se sente segura e a sua privacidade é protegida, é de crucial importância. Tais condições são essenciais para garantir os movimentos espontâneos nas posições verticais e também para a

excelente libertação hormonal – fatores chave para um parto ativo.

8. A imersão em água quente, na temperatura do corpo aproximadamente, e durante a fase ativa do trabalho de parto (5-6 cm dilatação), tem-se mostrado eficaz como facilitador de um parto ativo. As contrações podem ficar mais intensas, e a propriedade de flutuação da água aumenta o relaxamento, o conforto e a mobilidade. Estudos têm demonstrado que a

modificação da dor é significativa. Utilizada inicialmente com a intenção de facilitar o trabalho de parto, uma piscina de parto também pode oferecer um ambiente favorável para o parto, quando as condições são adequadas.

9. Vários estudos, nos últimos 50 anos, indicam que quando o parto é ativo, as vantagens são:

•O ritmo natural, e a continuidade do parto não sofrem interrupções ou interferências

•As contrações uterinas são mais fortes, mais regulares e mais freqüentes.

•A dilatação é favorecida.

•Um relaxamento mais completo torna-se possível entre as contrações.

•A pressão intrauterina é consideravelmente mais alta.

•O trabalho de parto e o período expulsivo são mais curtos – alguns estudos apontam para uma percentagem de tempo mais curto de 40% para o grupo em posição vertical.

•Existe mais conforto, menor dor e stresse; portanto, a necessidade de analgesia diminui.

•A condição do recém-nascido é geralmente ótima.

•As mulheres sentem que são participantes plenas, que estão no controle, e, sentem com maior freqüência que parir é uma experiência maravilhosa e satisfatória.

10. Não há dúvidas para ninguém que tenha vivido ou assistido tanto o parto ativo quanto o parto passivo, que um processo de parto ativo é geralmente mais fácil, mais seguro e mais recompensador tanto para a mãe quanto para o bebé. Após um parto ativo, a mãe sente que ela pariu o seu filho, ao invés de sentir que o seu filho foi extraído dela. Mãe e bebê foram, juntos, participantes plenos, e ambos estão alerta, não estão sob o efeito de drogas, e estão saudáveis quando se encontram face-a- face. Isto cria, inevitavelmente, as melhores condições possíveis para a vinculação materno-infantil, e para a formação de bases para relacionamentos

amorosos e saudáveis na família.

11. O Parto Ativo é mais que simplesmente uma questão de posições. Apesar da liberdade de movimentação espontânea e do uso de posições verticais ser fundamental, a definição essencial de um parto ativo é aquela na qual a mulher está no comando das suas escolhas e decisões. É esta condição que permite à mulher se beneficiar de uma parceria produtiva e

mutuamente respeitosa com os profissionais que a atendem. Quando as intervenções são necessárias, os princípios do parto ativo ainda podem ser úteis. Podem ser combinados com os procedimentos obstétricos, e ajudar a minimizar os riscos e os efeitos colaterais. Quando este é o caso, cada parto, seja natural ou assistido, pode ser chamado de parto ativo.

12. As conseqüências a longo prazo de intervenções desnecessárias no período ao redor do nascimento , tanto para a saúde quanto para o bem-estar, são cada vez mais preocupantes.

Com base em descobertas de pesquisas, experiências modernas e instinto ancestral, mudanças profundas na atitude e na oferta dos serviços de maternidades, na educação das parteiras- obstetrizes e na preparação das mulheres para o parto são inevitáveis para que se aumente o

potencial para o parto fisiológico.

13. O parto, na vida de qualquer mulher, é um ato excepcional, uma viagem de força, parcialmente instintiva e parcialmente aprendida. É necessário uma certa destreza para se fazer a maioria das coisas, e o parto não é exceção. Uma mulher que deseja viver o parto plenamente precisa de mais que informação e conhecimento sobre gravidez, trabalho de parto

e parto. Ela também precisa de preparação física, mental e emocional ao longo da sua gestação, para que possa adotar posições verticais com facilidade e conforto, e desenvolver confiança em sua habilidade inata para parir. A preparação para um parto ativo precisa oferecê-la formas para obter um relaxamento profundo do corpo e mente, para que ela possa acessar e confiar no seu potencial instintivo.

14. Além de ser uma celebração na família, o nascimento de um filho é um evento crítico e incerto, que envolve suspense em relação ao seu resultado. As habilidades para parir, e para atender partos, são valorizadas em todas as sociedades. No mundo moderno e ocidental, a aplicação da tecnologia ao nascimento trouxe, sem precedentes, segurança e procedimentos que salvam vidas. Entretanto, o uso indiscriminado e rotineiro de tais tecnologias, aplicadas na grande maioria das mulheres, é inapropriado, e tem causado um aumento no número de partos complicados e cirúrgicos em todo o mundo. Este contexto leva à perda do saber valioso e essencial do partejar, e aumenta a dependência na tecnologia. Vai corroendo a satisfação e a

confiança tanto das mães quanto das parteiras-obstetras. Os médicos tornaram-se os especialistas em partos. Mais ainda, o equilíbrio de poder é tal que a capacidade da mãe foi tão minada até chegar ao ponto da maioria das mulheres terem perdido o contato com o conhecimento e sabedoria antigos sobre o parto, que antes eram passados de geração em geração, de mãe para mãe. Este equilíbrio de saber e poder deve ser restaurado através da recuperação do potencial instintivo, da liberdade e do poder de quem faz o parto, a mãe. O Movimento pelo Parto Ativo é comprometido com o empoderamento das mulheres no parto e da redescoberta global do parto.

Escrito pela primeira vez em Abril 1982 por Janet e Arthur Balaskas

Revisão de Janet Balaskas em Fevereiro 2001

Tradução autorizada: Talia Gevaerd de Souza

©Copyright Janet Balaskas 2001

Nenhuma parte do texto acima pode ser reproduzida, de nenhuma forma, sem permissão de Janet Balaskas.

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